SER PAJUBÁ

 

Ser Pajubá

Num dia calmo, andando pela rua,

Um ser estranho aproximou-se.

Parou-me. 

Dei-lhe atenção, pois falava um português claro.

Inteligível.

Voz doce. Parecia normal.

Minutos se foram.

A conversa evoluiu quando, de repente, passei a não compreendê-lo.

Não entendia uma só palavra… 

  • “Nhaí, amapô! Não faça a loka e pague meu acué, deixe de equê se não eu puxo teu picumã!”. 
  • O quê? 
  • Não entendeu?
  • É Pajubá, uai… 

A curiosidade foi instantânea. 

O Pajubá não conheço. Nunca ouvi alguém falar.

Melhor, então, calar…

Mas ele insistia no tal Pajubá, forçando-me ouvir uma cantilena indecifrável.

  • “Vamu fazer a chuca e acuendar a neca!”
  • O moço está bem? 
  • É Pajubá! 
  • É Pajubá! 
  • Mim falar Pajubá! 
  • Mim falar…
  • Mim, Pajubá!

Espantado. Atônito. Sem reação…

Tensão e atenção voltadas para o ser que tentava me tocar, 

Tentava invadir o espaço que não era seu.

E insistia…

  • É Pajubá! 
  • Pajubá! 

O distanciamento da realidade tornava aquele arremedo cultural um ser insano.

Louco. Tarado por Pajubá, insistindo em tamanha demência.

Não aguentei. 

Tive que falar!

  • Vixe! Arriégua! Vá pra lá!
  • Desconjuro! Saravá!
  • Deus te guie! 
  • Ele te abençoará!
  • Vai-te curar, ser Pajubá! 
  • Que o português te exorcize, e afaste de ti esta “analfademência”.
  • Ainda há tempo.
  • És melhor que um Pajubá.
  • Vai-te tratar! Estudar! Trabalhar! 
  • Para de “pajubar”! 
  • Retoma a dignidade. A sociedade te acolherá!

Findo o ritual, e sem saber muito bem como, a exortação funcionou.

E lá se foi o Pajubá…

Como homem das cavernas, saiu “pajubando” e defecando asneiras na face de transeuntes, 

Não deixou em mim um pingo sequer de ódio, rancor ou mágoa.

Coitado.

Indiferente Pajubá.

Pouco me importam suas convicções…

Que seja feliz no mundo de “pajubices”!

Mas, em meio à indiferença, 

Pajubá conseguiu algo: despertou minha compaixão.

Acabei sentindo pena de sua pobreza de espírito.  

Pena do povo que pajeia os “pajubeiros”.

Pena dos educadores, que impõem a deformação cultural. 

Pena dos pais, que são vítimas da ditadura “pajubense”. 

Pena de nossa língua. 

Esquecida.

Enterrada por caciques Pajubás.  

Santa e analfabeta ignorância…

Santíssima decrepitude intelectual! 

Piedade, Senhor! 

Piedade do Pajubá! 

Piedade de nós! 

 

Autor: Harley Wanzeller (06.11.2018)

 

2 Replies to “SER PAJUBÁ”

  1. Sandra Reis says:

    Realmente é muito triste saber que ao invés de nossa ser reconhecida, respeitada e devidamente ensinada…deram lugar a um dialeto que incentiva a ignorância e o total desrespeito. É repugnante!

    Responder
    1. poesiajanelasdaalma says:

      Verdade querida Sandra. Vamos adiante, sem medo, mudar este paradigma!

      Responder

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