No Bar do Parque, dancei e fui feliz.

Um choro divino em gotas pluviais.

Prenúncio de um sofrimento. 

Do choro humano,

Carregado de dor e paixão.

Encarando a perda iminente. 

Quem sabe, a ciência de um luto existente?

Foi assim,

Exatamente assim

Quando te vi nos braços de outrem.

Caminhando leve e sorridente, 

Na praça em que nos encontrávamos.

Denunciando um amor recente,

Opressor de um coração calado,

Carente.

Foram-se embora de minha vista.

Você e seu par, em passos felizes.

Entre mangueiras centenárias, 

Beijavam-se como perdizes.

Torturavam minhas retinas,

Zombando de minha canalhice.

Sumiram em névoas de vapor – respiro de calor pendente afugentado pelo temporal vespertino.

E eu, feito menino, desejei chorar no colo impuro de certas meninas.

Saudoso, fui ao encontro de meu parque de diversões.

Sentei no templo de minha boemia,  bem ao lado daquele Teatro imponente.

Esse lugar que já não me transmitia Paz alguma…

Parecia tudo diferente…

Tudo mudou. 

Naquele momento,

Naquela hora,

Naquele Bar… 

No surto do arrependimento,

Provei o desgosto da perda amarga daquela morena faceira…

Não tenho mais o seu amor.

Ah morena! 

Quanta dor!

Quanta ignorância minha! 

Querendo tudo e todas, perdi o que me fascina.

Teu suor cheiroso,

Teu sorriso, 

Aquela tua cor, aquela tua pele, 

Aquele teu sabor…

Tudo guardado em memória,

O “tudo” de ontem, hoje é nada.

A morena se foi.

Deleita-se agora no leito alheio,

Arruinando esse pobre coitado.

Impondo justiça, com a pena que mereço:

Solidão, e um maço de cigarro!

De posse da piteira, e logo no primeiro trago,

Sentou-se ao lado um violeiro.

Sensível como se sofresse do mesmo mal,

Percebeu que o momento era marcado pela eternidade do remorso.

O tempo era meu.

Somente meu.

Honrando minha dor,

O violeiro tocou o primeiro acorde, dedilhando uma cantiga marajoara. 

Aquela que embalou noites intensas com a morena.

Suspirei…

Que saudade…

A canção fez correr por meu rosto a primeira lágrima insossa.

As gotas escorriam pelo queixo, e eram absorvidas pela poça de chuva.

Percebi meu espelho, fincado no chão.

Nele, um reflexo trêmulo.

Duro.

Sofrimento puro!

Assim passei minhas horas de descontento,

Até que o torpor da bebida se apoderou de meus sentidos.

Do sofrimento e torpor, surgiu a ilusão da alegria.

O agrado da volta à boemia.

Num salto decidido,

Fui ao palco da vida.

Dancei, levado nos braços da “Dama da Riachuelo”.

Pronto somaram-se as carências. 

A dona revelou-me seu apreço, 

A um preço que costumava pagar.

Descobri assim meu antigo endereço.

O novo velho lar.

Muito mais que um bar.

Era “o Bar”…

“Bar do Parque” da madrugada!

Casa de minhas ilusões.  

Ali dancei, e fui feliz.  

Harley Wanzeller          (30.01.2018) 

 

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