E agora, Drummond?

E agora, Drummond?

Uma fantasia gris
Em um canto qualquer,
Na esquina da Atlântica com a Bolivar.
Após alguns tragos, e certa tontura,
Com a cabeça distante, na lua,
Me afasto do mundo sóbrio,
E num espasmo de loucura enxergo, em vista turva,
A curva de meu semblante em plena ralé.
Bêbado.
Fora de mim.
Ausente do mundo.
Dali de onde estava, avistei um par de amigos.
Lá longe.
Sentados.
Afogando as mágoas em copos americanos.
Suados.
Transbordantes.
Nem mesmo a bebida os alegrava.
Eram dois marmanjos pranteando juntos uma dor irrefreável.
As lágrimas rolavam entre as fendas de suas faces.
Por curiosidade, aproximei-me.
Nunca vira homens tão grisalhos inconsolados, feito crianças que
perderam a bola no quintal da vizinha carrasca.
Fui ficando mais curioso.
De repente, sentei-me.
Vagarosamente, amesendei-me ao lado.
Cruzei as pernas como se pudesse, àquela altura, responder com
classe.
Passei a folhear o cardápio, com ouvidos aguçados, em plena
descompostura.
Era um tipo larápio de conversa alheia, num grande esforço para
desvendar o que tanto despertava a melancolia tardia daqueles
velhos amigos.
Queria muito entender.
Descobrir o que não sabia.
Dividir o que não podia…
Subitamente, estávamos todos lá: Drummond, seu amigo José, e
eu, como um ilustre intruso.
– Quem te viu, Drummond?
– Derramando lágrimas por tua poesia?
– Ou seria decepção com a realidade?
Bradava José, sem piedade, uma mágoa enrustida.
Despida, porém, de cólera.
Travestida, quem sabe, na amizade nutrida pelo velho e bom poeta.
Bom e honesto poeta…
Enganou-se quanto a José.
Não poupou-lhe achincalhos,
Ficou famoso ao proferir verdades na face de um pobre amigo que
vivia a ilusão da época.
Criticou José.
O viu esfarrapado.
Um démodé.
Uma ilusão personificada, que não se alinhava aos jovens baianos,
nem aos maconheiros praianos: Vagabundos das orlas de
Copacabana.
Não estudavam.
Não trabalhavam.
Certos de que o paraíso era em Havana.
Uma horda cujo batismo era a prova de um “bon vivant”.
Sonhavam.
E como sonhavam…
Revolucionavam uma luta que não era deles.
Caíram, assim, no conto do inimigo.
Tão mansos quanto um joguete nas mãos de uma criança.
Inúteis.
Verdadeiras marionetes conduzidas por aqueles que, hoje, fazem
Drummond cair em si.
Quem diria?
Apanhar uma lição do simples José?
Este não poupa o amigo, com reflexões que mais parecem punhais
em têmporas.
– E agora, Drummond?
– Como ficam tuas certezas?
– E tantas inspirações aliadas aos ideais que hoje vês sem véu?
As lágrimas corriam pelo rosto de um poeta intelectualmente
honesto.
Envergonhado, por manter-se enganado durante tanto tempo.
Tempo que o fez perceber a origem do rubro que defendia.
Maldito rubro!
Tanto sangue derramado!
– Quanto sofrimento meus versos poderiam ter poupado?
– Como pude ser tão facilmente tapeado?
Eis o autoflagelo de um poeta prestes a confessar o espelho por trás
da poesia.
Copiosamente, chorava cada verso outrora escrito.
Queria ele voltar no tempo, e mudar a inspiração.
Não podia.
O máximo que conseguia era retomar a honra pela assunção da
culpa.
Por isso, afirmou:
– Eu era José!
Meus olhos se abrem.
Desperto antes da hora, ao som de rajadas de fogo.
Rogo que passe bem, em meio ao tiroteio.
Desejo que volte a salvo do trabalho.
Realidade posta, e sonho acabado, me vi acordado.
Esbaforido.
Um tanto chocado com um sono profundo e sua revelação.
Senti desolação.
Frustração própria de quem tem a ilusão desfeita.
As vendas e as convicções me foram tiradas…
E agora?
O que farei com meus livros de capas vermelhas – tão únicos e
cheios do vernáculo deformado?
Como serão meus dias sem a dose de utopia?
Como deixarei de ser “politicamente correto”?
Meu mar, secou?
Será que tudo acabou?
A festa?
A contradição?
E o sentido da vida?
A luz apagou?
Para onde vou?
E agora, Drummond?

  Autor: Harley Wanzeller (21.08.2018)

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