Adoráveis carrascos

Adoráveis carrascos

 

Nem sempre fui desejado.
Mera obra do acaso.
Quem sabe?
Viver é o que importa.
Sou filho de Deus!
Venci a primeira batalha:
Na luta pela vida,
Milhões de semelhantes tentaram se igualar a mim.
Fui mais forte, pela força divina.
Há quem duvide.
Há quem queira tirar-me o respiro que ainda darei.
O sorriso com o qual iluminarei o mundo.
Há quem queira deixar-me mudo,
Antes do sol nascer.
Pouco importam seus planos, papai e mamãe.
Hoje vivo.
Se era indesejado,
Que não fosse gerado.
Mas hoje, cá estou.
Em alma, corporificado.
Se a insanidade for maior que o instinto,
E pelo desatino for levado ao sacrifício,
Não se enganem: serei assassinado.
Enquanto restar-me forças, lutarei.
Se venci a batalha da vida, vencerei todas as demais.
Pensem nos milhares, meus semelhantes,
Que ao encontrarem o abrigo, tornam-se almados,
Filhos de Deus.
Não sejam eles levados ao calvário sem qualquer crime nas costas,
Como estou sendo eu.
Puro tal qual o Nazareno,
Serei sacrificado entre dois ímpios.
A culpa residirá em vossas mentes,
Pobres delinquentes
Ignorantes assassinos.
Despeço-me com uma mensagem de amor.
Gostaria de impor as mãos sobre meus carrascos.
Dizer-lhes quanto os venero.
Que almejo mais um abraço,
Um afago puro e sincero.
Mas minha presença inconveniente torna-se a sentença capital.
Tal como lixo, sou descartado em algum hospital.
Fiquem, então, com minha lembrança, amados carrascos.
Um dia, conhecereis o amor.
Desejo-lhes misericórdia divina,
Ante tanta ignorância e asco.
Quanto a mim, já vos perdoei.
Durmam em paz,
Adoráveis carrascos!

Harley Wanzeller

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